Assim, assado

04jan12

- Para de pensar e me diz o que sente.
Beijou-a.


clichê

03jan12

- Quer ficar comigo?
- Com ou sem clichês?
- …


Saudade

25nov11
‎- Que quebranto é esse?
- É saudade.
 

27out11

- Você devia me contar o que me prometeu contar.
- Já não posso mais.
- Por quê?
- Agora te odeio.


Punk rock em dia de jazz. Não tenho frescuras, mesmo. Larguei escritórios e redações para não ter que fingir ligar pra um protocolo de richas internas. Assim como para voltar a usar cotidianamente calça jeans, camiseta e tênis. Ótimos para flanar e sempre mais divertidos e libertários que qualquer uniforme de yuppie. Enfim, já passei melhores momentos com um rabo-de-galo e uma porção de amendoim em um boteco qualquer de esquina do centro do que em um jantar de congresso em salões finos do Morumbi, Jardins e Pinheiros. Não que eu não goste de boa comida e boa bebida, aceito convites ainda, a trabalho ou não. É que a experiência, as conversas e principalmente as pessoas que acompanharam o primeiro foram infinitamente mais enriquecedoras e tocantes. Além da constatação de que frequentemente a classe alta é educada mais por uma questão de status do que por cidadania ou respeito.

Não creio no mundo das propagandas de margarina. Se se é o que se pensa, estou fodido. Niilismo é um jeito tosco de ver as coisas eu sei, mas aquele papinho de polegar pra cima e sorriso esticado a todo momento tampouco explica ainda tanta dor e morte.


Queimou…

23ago11

…no último cigarro dia todas as frustrações.
Pouco depois lhe atacaria uma queimação no estômago que não esperava.


E você descobriu, com toda sua canalhice, que um dos maiores prêmios que um homem pode encontrar na descoberta de um corpo é o abrir-se de uma mulher reprimida. Um corpo que revelara pra ti e somente pra ti uma fonte de novas sensações e um laboratório de paixão e êxtase. Para tanto, fora somente dirigir adequadamente o momento, o toque, a voz, os sentidos, sua presença. E presentificar-se.


Trancinhas feitas pela mãe seguras por pequenos nós das fitinhas vermelhas. Quadrilha dançada em festa junina de escola. Como par da dança o menino ruivo de óculos e das mil alergias que todos detestam. Do outro lado o menino loiro bonito que te xinga te chama de feia de gorda e que todos adoram. Voando da esquerda pra direita barras de vestido e chapéus de palha comprados no bazar da vila. Pintinhas e bigodes falsos pintados se desmanchando no suor. Trancinhas se mantendo apesar da euforia. Menino loiro passando a seu lado. Olhar atravessado enfezado trocado. Menina bonita de olho claro nada percebe. Troca de casais. Menina bonita se separa do menino loiro. O ruivo de óculos que ninguém gosta se perde assim que você o afasta. O padre está perdido porque quase todos erraram o passo. Menino loiro se aproxima e você lhe mostra a língua. Menina bonita de olhos claros pega na mão de menino ruivo e com ele começa a dançar. Vários casais mas apenas notamos dois. Professora vê uma semana de ensaios tornar-se nada. Fitinha vermelha direita se desamarra e desarranja uma trança. Menino loiro estende a mão e você não a recusa. Fitinha levada pelo vento pára entre os óculos do menino ruivo ruborizado pela menina bonita de olhos claros. Você saca o estilete do bolso oculto do vestido e num giro desfere um corte no rosto do menino loiro bonito que todo mundo adora. Fitinha vermelha da trança esquerda se solta e o cabelo começa a colar-se ao rosto suado. Menina bonita de olho claro vê o menino ruivo vermelho caindo com a visão tapada pela fitinha vermelha. Meninos vêem vermelho. Grito de choro desespero o padre se perdeu. Meu Deus vários lembraram de dizer. Você larga o estilete que vai ao chão e olha o menino loiro bonito chorando com o rosto ensangüentando. Fitinhas vermelhas perdidas na pista por baixo dos pés em meio ao vermelho. E Menina de trancinhas feitas pela mãe presas por pequenas fitinhas vermelhas perdidas na dança agora se dá conta que o cabelo está solto.

(2003)


Ostra

02ago11

- E pra onde você vai?
- Pra minha concha.
- Então produza pérolas.
Duvidavam.


Girar

31jul11

Entendeu então, num só momento, naquele arrepio que lhe comprimia a voz, umedecia os olhos e lhe afetava a pele que sentir era recompor o próprio espaço, um corpo e um estar que às vezes esquecia ou que desconhecia. Sentir então era sentir a reordenação dos fluxos, pela junção dos ímpetos, das intenções, das texturas e cores de um estranho cosmos – que era seu, só seu – a fim de dar ritmo a um devaneante redemoinho, que se desfaz, se dirige, se esvai e reconstrói a si mesmo. Às vezes, então, como agora, assim agia para girar para fora do próprio eixo, do próprio ser – que deveria ser seu olho – e logo ganhar a medida do mundo, não mais fixo, porque se assim o fosse não permitiria que os ventos cruzassem os planos quânticos e atuassem de forma simultânea sobre o que é, o que foi, o que será, o que pode ser e o que poderia ter sido.

Nesse ponto tudo adquire a importância de uma combinatória qualquer, avulsa, aleatória, que na verdade não pesa mais que nenhuma das outras possibilidades para a construção do todo – que existiria sendo transitório? A sua lógica, se existe, reside em sua impermanência, nas relações sempre inconstantes, sentidas, das partes que o formam, por isso que, para existir e ser esboçado, o todo depende das relações estabelecidas entre seus fragmentos mais que neles próprios, constituindo-se, portanto, como bem mais que a somatória do conjunto de suas partes. E por aí descobrira sua complexidade, e chorava, porque não sabia se a aguentava, porque era a mesma complexidade que havia sido postulada para todas as coisas, por quem quer que as tenha sentido pela primeira vez.




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