Insônia

25Mar06

— Você precisa dormir – disse ela, olhando-o nos olhos, percorrendo o rosto. Mas não era amor, talvez fosse cuidado. Olhava para ele como se olha para uma peça valiosa de propriedade pessoal que sofrera ou que está em vias de sofrer alguns danos. Ele ergueu as mãos, mãos fortes, bem-formadas, de dedos duros, e as examinou criticamente, imaginou mangas compridas as quais puxou para baixo dos pulsos. Coisas do hábito. Olhar para as mãos o fez lembrar do quanto teve vontade de acertar a cara dela tantas vezes. Estendeu silenciosamente uma mão na direção dela, entendendo, ela aproximou o rosto, os dedos desenharam os lábios, que se abriram, morderam, responderam. Ele começou a rir, já fechando os olhos. As mãos insistiam perdidas. Ela beijou-lhe suavemente, mas já sabia que agora ele nada sentira. — Dorme…

(2001 ou 2002)



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