Quantas vezes escutamos o clássico “ano novo, vida nova” para se referir ao ano que começa, com a esperança de que tudo seja melhor. Uns tantos o estendem a coisas como casa nova vida nova, carro novo vida nova, colégio / faculdade / trabalho novo vida nova. Mas se as coisas fossem realmente assim, levaria sobre meus ombros uma quantidade exorbitante de vidas incompletas, com início abrupto e sem final aparente.

Não pretendo começar uma vida nova e abandonar todas as demais que começam ao despertar, fazê-lo seria negar minha história e deixar em um passado alheio a mim tudo o que passei.

Alguns, nestas datas, fazem balanços para poder catalogar um certo período de tempo como bom ou mau, tomando certos critérios duvidosamente quantitativos e absolutamente subjetivos para fazê-lo, e comparando as vivências com ideais ou com simplesmente outros de períodos de tempo considerados piores ou melhores que o que se tenta avaliar.

Por mim não quero fazer isso, ainda que resulte difícil – é uma prática que fazemos quase sem pensar – mas é que este ano houve tanto movimento, e não me refiro somente em matéria de movimentos espacio-temporais, se não no sentido pleno da palavra, ainda que encontrar um parâmetro para avaliar isso me pareça extremamente difícil.

Este ano reconheço chorei muito, por diversas razões, mas não me atreveria a dizer que foi um ano ruim, às vezes, as lágrimas, por mais desgarradas sejam, não representam necessariamente coisas ruins, se não, menos mal, transições dolorosas que dão lugar a vivências diferentes, nem melhores nem piores, mas que nos permitem crescer.

Fui deixando feridas pelo caminho, tanto próprias como alheias, provoquei choros que ainda me pesam e dos quais me sinto culpada, mas que, contudo, me pareceram necessários para poder seguir adiante. Girei várias vezes minha vida, sem saber se errava o caminho ou se estava tomando o correto. Peguei atalhos e passei por paragens desconhecidas; ruelas e grandes avenidas me receberam, hospedarias de sonho me deram abrigo, e assim caminhei todo este ano, sentindo primeiro que não tinha um rumo fixo, que não existia uma finalidade para meus passos, mas pouco a pouco me dei conta que todos esses erros, todas essas lágrimas, me foram levando exatamente para onde estou agora.

Fui me encontrando com casualidades que agora me parecem quase predestinadas a estar no caminho, como pedras de momentos nas quais não tropecei, mas sim pelas quais passei por cima, acariciando cada uma de suas imperfeições e tirando lições de cada pedaço de terra colada em sua pele enrugada e colorida.

Este ano foi como uma montanha russa, com emoções intensas e diversas, momentos nos quais senti estar no topo do mundo, observando cada movimento sob meus pés, por sobre o céu com suas mil cores que sentia tão distantes. Contudo, também caí, e senti como enlameava as mãos com terra e enchia a boca com pó, e senti esse medo intenso ao baixar das nuvens a velocidades imensas, e temi, admito-o, temi esse solo umedecido por meu choro, temi a mim mesma e de não ter a capacidade de voltar a voar, e chorei ao cair, e sofri por estar no chão.

Mas acredito que em cada queda, voltava a subir gloriosa, não porque o fizera com as mãos limpas, e com as asas perfeitas, senão porque em cada queda, minha pele tomava novas cores que me vestiam a pele e me tingiam a alma. Converti-me em um ser de asas quebradas, mas as curei com terra e as amarrei com pó. Converti-me em um ser nu, mas me vesti com pasto e flores, e adornei meu vestido com espinhos voltados para dentro para recordar as penas sentidas e não ferir ninguém mais. Converti-me em um ser de carne e osso, e deixei para trás meu passado de cristal e de ar, enchi as veias com sangue, e deixei que nascesse a pele para cobrir meu coração.

Mas este não foi um processo que realizara sozinha, porque apesar da montanha russa possuir um só assento, milhares de outras montanhas se erguiam ao meu redor. Encontrei-me com muitos estando acima, e com outros tantos estando abaixo, houveram alguns que me acompanharam nos altos e baixos, que tomaram minha mão quando senti cair e me recordaram que não caía sozinha. Outros apareceram quando começava a voar novamente por sobre meus próprios castelos e me alentaram a me por de pé sem medo de cair, apesar da grande velocidade. Outros me apoiaram à distância com palavras e sussurros confiados ao vento, beijos e abraços confiados a cem aves coloridas e entregues aos lençóis a cada manhã por seu cantar.

E agora aqui estou, ainda sobre os trilhos, porque não se começa uma vida nova, porque não quero que assim seja, quero continuar a que tenho, e seguir dando voltas junto aos milhares de trilhos que sou capaz de vislumbrar.

Quero seguir me emocionando com aqueles que me rodeiam.

Entre os que contam muitos de vocês.

Obrigada por isso.

Espero vocês na próxima curva, aí se apresenta uma nova arrancada em direção ao sol.

Quem me acompanha?

Carolina Avilles (Dez. 2004)
Tradução e Fotos: Nil França



2 Responses to “Happy New Rollercoster”  

  1. 1 Denise

    Amei o texto e postei um trecho no meu blog (nem pedi licença, q feio!)… me identifiquei demais com cada pedaço…
    Feliz 2007, meu querido!!!
    Mil beijos

    PS: posta logo algo seu aí!!!!

  2. 2 Leda

    Nil, suas fotos estão cada vez mais bonitas. Que saudade de sair por aí fotografando…
    Parabéns!


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