Quanto tempo passou?
Importa? O era feito dele, do tempo? Eu sabia que me iludia, talvez pior: fingia que me iludia. Tinha os dias marcados um a um, primeiro na minha agenda-diário-inferno, depois no calendário, mentalmente marcados todos os dias, emocionalmente marcados os dias de lua cheia. Se fosse homem, por piada, teria uma mulher no calendário, estilo oficina mecânica; mas me isento deste tipo de vulgaridade, me restringi a uma paisagem, às quedas das águas de uma cachoeira do tamanho de um arranha-céu. Afinal, tudo são quedas. Sei que dia é hoje, mas ainda assim olho para o calendário, ele me dá a medida da passagem dos dias, a foto inalterada da queda d’água o quanto as coisas pouco mudaram. Solto um sorriso nervoso com este pensamento estranho, esta reflexão fora de si, esta viagem pra lugar nenhum. Já rio sem razão. Às vezes é divertido pensar em besteiras, pensar nisso. De morrer de rir. De morrer, pelo menos. Rir é um pormenor. E ponto final.
……- O tempo é uma merda.
……Ponto final.
……(2003)
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