perfil
Como todos, encaro o imprevisível e por conseqüência a mim com uma mescla de inquietação e medo. O único certo é a incerteza e somente ela, às vezes, é capaz de constituir um sentido, uma força motriz. Mas nada é absoluto. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, escreveu Saramago em seu ensaio sobre a cegueira, a essa coisa alguns chamam de alma, outros de espírito. Porém vejo que nomes não importam. Importa é que há uma cabeça, um corpo, um coração e essa coisa sem nome. O que sou se altera a cada segundo. Sou inconstante, mas tento ser coerente. Talvez por isso viva mudando isso aqui. Sou o menino, o homem, o velho, me impressiono com o simples e busco o impossível, olho em busca e deslizo sem ser observado. Me acalmo com o mesmo talento que mostro saber berrar, mas não grito a favor de causas em que não acredito, não mais. Antipático quando quero. Impulsivo talvez nunca mais, ainda que as sensações espontâneas seduzam e se mostrem invencíveis. Sou múltiplo, talvez por isso nunca esteja satisfeito e viva em constantes guerras civis com meus eus. Tento ser generoso e sei brigar pelo que é meu e pelo que acredito. Observo, concluo e às vezes me distraio (porque há sempre algo mais a ser observado e a entender). Às vezes passo despercebido quando quero, às vezes me destaco ou perturbo a ordem das coisas. Sou tempestade e calmaria. Me adapto, envolvo e deixo parte de mim. Às vezes tomo e firo, como fogo. Sei ser sutil, mas prefiro ser direto. Tento ser benevolente e admiro as pessoas que o são. Gosto de boas conversas, com café ou cerveja, ao vivo preferencialmente. Tenho meu estilo e ele não tem rótulo ou nome.Tenho minha vida e respeito a alheia. Tenho uma expressão e acredito na liberdade que todas as outras devem ter. As palavras constantemente traem e tento comunicar-me com o que vai além delas – às vezes dá certo e às vezes acerto. Tenho vícios e virtudes e por isso desconfio de idealizações e idolatrias. Muito do que acreditava sofreu com irrealidades e os sonhos se dissolveram a uma velocidade estúpida. Experimentei vôos e quedas na mesma medida em que sentia e ignorava a gravidade. Já amei, fui amado. Já sorri e chorei. Fiz coisas que amo, vivi experiências que valem à pena compartilhar e, na mesma proporção, fiz um monte de coisas que hoje reprovo, mas que sei que naquele momento tiveram seu valor (bem, pelo menos algumas…). Tenho medo e coragem, desvario e cautela. Ando em dúvida na determinação de meus novos rumos. Atualmente eles tomaram algo um tanto diferente do que imaginava há 5 anos. Mas, paradoxalmente ou não, está sendo incrível, de qualquer forma. Deixei as idealizações de lado e ando trabalhando as realizações. Inicio processos que depois não sei como finalizar, mas o fim de alguns revelou vitórias e algumas decepções. Não choro, às vezes queria. Não durmo e preciso de café. Talvez precise mudar mais algumas coisas, tomar outros rumos, revirar tudo. Tudo bem, sou tempestade: o improvável e o desafio sempre me soaram mais interessantes. Sou sem juízo, neurótico e ansioso. Quero o grito depois do salto e o alívio de se sentir são e salvo assim que o pára-quedas se abrir e me deixar contemplando calmamente as coisas de cima (mas já pensando no próximo salto). Quero carpe diem e carpe noctem e como o que eu sou se altera a cada segundo, já estou pensando em alterar isso aqui.
(20/12/2004)




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